Lembranças

Lembranças…

(Texto de Sarah Siqueira)

O vidro curvo era totalmente transparente, e através dele eu via aquele imenso planeta azul. A sensação era indescritível – aquela massa imensa azul anil era coberta aqui e ali por porções verdejantes de terra, além de nuvens brancas que pairavam pouco acima. Senti o peito apertar. Ultimamente eu vinha tendo sensações emotivas muito fortes quando pensava naquele planeta. Agora, foi-me dada a oportunidade de viver fisicamente ali, juntamente com milhares de outros de minha raça. Em sendo assim, tínhamos estabelecido esta base extra-planetária, de onde monitorávamos o planeta, suas condições, e seus habitantes primitivos.

Naquele dia, eu e mais alguns pesquisadores descemos à superfície. Nossa compleição não era física o suficiente ainda para que pudéssemos ser notados por aqueles hominídeos. Os corpos que ocuparíamos, embora muito superiores àqueles nascidos naturalmente no planeta, ainda estavam sendo finalizados em nosso laboratórios. Já havíamos sido ligados energeticamente a eles, mas ainda não tínhamos permissão para o acoplamento total. Lembro-me de andar em meio àqueles nativos, muito cabeludos e todos nus, enquanto se reuniam em círculo para uma refeição.

Detive-me frente a uma fêmea que dava de mamar a sua cria – aquele ser, tão primitivo, tão mal-formado segundo nossos padrões, emanava uma aura rosada de puro amor maternal. Eu podia sentir que ela seria capaz de qualquer coisa por aquele ser pequenino e indefeso. Seus olhos tinham um brilho especial, de carinho e acolhimento, enquanto ela embalava seu pequeno: aquilo era divino. A emoção foi tão forte que tive de afastar-me.

Lembro-me de sentar-me à beira de um penhasco florido, aspirando o ar rarefeito e olhando o vale verdejante que se estendia lá embaixo. Aquilo era lindo! Tão diferente daquilo que estávamos acostumados…
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